Abordagem histórico-teológica sobre o suicídio na sociedade antiga e moderna/Parte I

terça-feira, julho 12, 2016
“O suicídio é a tentativa do homem de dar um último sentido humano à vida que se tornou sem sentido e um último golpe na autojustificação.” (DIETRICH BONHOFFER)
Francisco Edinardo Gomes de Oliveira*

Resumo: O presente texto é uma abordagem sobre o suicídio, é um assunto que causa medo, sensação desagradável, possui uma carga muito negativa na dimensão cultural da tradição. Um problema antigo e que no período da modernidade, os cientistas e estudiosos não conseguiram mostrar soluções concretas para evitá-lo. Existem grupos que ajudam as pessoas que antes de praticar o ato suicida pedem socorro. Este trabalho tem por objetivo levar o leitor a refletir sobre o suicídio. Cabe a cada um fazer seu juízo sobre o assunto em questão, nós cristãos somos identificados pela marca da vida que é o próprio Jesus. Palavras-chaves: Humano. Igreja Católica. Suicídio. Social. 

Introdução: 
Para BARCHIFONTAINE e PESSINI, o suicídio é compreendido como uma ação perante a qual um ser humano se inflige a morte, intencionalmente, por ato ou pela omissão de alguma coisa que conserve a vida. Bento em sua obra com base em Durkheim afirma: “chama-se suicídio todo caso de morte que resulte, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo pela própria vitima, sabedora de que devia produzir esse resultado (...).” Existem diversas forma de se praticar o suicídio, o ser humano pode fazer suicídio por enforcamento, ingerir veneno, disparar um tiro contra si próprio, abstendo-se de alimentos etc.. Nesse ‘universo’ do suicídio existem várias tentativas ao mesmo, que são meios, mais leves, por exemplo: pessoas ingerem gás, drogas, comem muito, ou se alimentam de comidas que lhes trazem a morte, ou excesso de bebidas. Na esfera do suicídio apontam-se alguns problemas sociais causadores desse fracasso: doenças incuráveis, dificuldade econômicas, penas judiciárias. Se diz que o suicídio é um gesto pós análise. É uma vontade de morrer, cujos motivos às vezes já são evidentes na pessoa. 

1. Fatores que poderão levar ao suicídio 
Não se pode afirmar que existe um único motivo que leva a pessoa a cometer suicídio; dentre os diversos casos registrados há variação de situações. “O ato de se matar não é luxo de pessoa rica e famosa, mas significa a miséria dos fracos, isto é, dos enfraquecidos.” Questões como suicídio-desemprego e suicídio-crise econômica não funciona como lei geral. Pessoas pobres, ricas, letrados, analfabetos, se matam. Para o sociólogo E. Durkheim, a taxa de suicídio varia na razão inversa do grau de interação das pessoas, é sempre pertinente. Pobre ou rico, o ser humano se mata em estado de isolamento. 

(...), as circunstâncias que são consideradas como causas do suicídio pelo fato de o acompanharem frequentemente são em número quase infinito. Uns se matam no bem-estar e outros na pobreza; um tinha uma vida familiar feliz e o outro acabava de desfazer com o divórcio um casamento que tinha feito infeliz. Aqui é um soldado que renuncia à vida após ter sido castigado por um erro que não cometera: além é um criminoso, cujo crime ficou impune, que se castiga a si próprio. Os fatos mais diversos e mesmo os mais contraditórios da vida podem servir igualmente de pretexto para o suicídio quer isto portanto dizer que nenhum deles é a sua causa especifica. 

O cidadão após ser aposentado, fica em sua casa, distante de suas atividades anteriores, isso provoca seu isolamento social. Nessa situação o suicídio de um homem velho não é simplesmente a vontade de matar-se, mas uma auto-valorização, ou seja, é uma forma de sair do estado de morte social. 

2. Fator histórico sobre o suicídio 
O ato do suicídio não é uma criação moderna, mas é algo muito distante desde nossas origens. Dentro da cultura grega o suicídio causava inquietação, esse tema foi discutido por filósofos e seus discípulos. No Fédon de Platão encontramos Símias interrogar Sócrates sobre o suicídio, logo o velho filósofo responde fazendo diálogo com seu discípulo. 

Dize-nos pois Sócrates, por que motivo se pode certamente negar que seja coisa permitida, o suicídio? Eu mesmo, com efeito (é o que nos perguntavas há pouco), já ouvi Filolau dizer, no tempo em que se encontrava entre nós, e também a outros, que tal coisa não se pode fazer. Mas ninguém foi capaz de ensinar-me qualquer coisa de exato a esse respeito. (...). É possível, talvez, que eu te possa ensinar alguma coisa. É provável também que isso te pareça maravilhoso e que te espantes ao saber que, para todos os homens, há uma necessidade de viver, necessidade invariável mesmo para aqueles para os quais a morte seria preferível à vida. Acharás espantoso ainda que não seja permitido àqueles, para os quais a morte seja um bem preferível à vida, o direito de procurarem, por si, esse bem e que, para o obterem, necessitem recebê-lo de outrem. 

3. Visão histórica do suicídio em várias Instituições:
Historicamente, o suicídio para uns foi causa de admiração à honestidade, para outros, punição. A história conta que nas antiquíssimas lendas gregas o ato de suicídio era bem admirável. Já os estoicos e epicureus percebiam no suicídio uma resolução aceitável para situações intoleráveis de vida. Com o passar dos tempos algumas culturas dominantes começaram a ver esse ato como algo negativo, chegando a ser considerado um insulto à autoridade política/Estado. “(...), os gregos e os romanos o condenaram como uma ofensa política contra o Estado, porque a comunidade perdia um membro útil.” 

4. Visão religiosa antiga sobre o suicídio 
Biblicamente não se contam proibições sobre o suicídio, isso é válido para o Antigo Testamento como também para o Novo Testamento. Christian, afirma seis acontecimentos de suicídios do Antigo Testamento, porém outros estudiosos afirmam ser três, e um acontecido no Novo Testamento que é o suicídio de Judas Iscariotes, aquele que traiu Jesus Cristo. 

No Antigo Testamento, temos apenas três casos de suicídio, a saber: o rei Saul, ao ser derrotado na batalha, temendo ser ridicularizado e torturado por seus inimigos, jogou-se contra a ponta de sua própria espada, e seu escudeiro, vendo isso, seguiu o exemplo de seu senhor, morrendo ao seu lado (1Sm 31.4-6). Aitofel enforcou-se em casa. Vejamos o motivo: “Vendo, pois, Aitofel que se não tinha seguido o seu conselho, abordou o jumento, levantou-se, foi para a sua cidade, e deu ordem à sua casa, se enforcou, morreu, e foi sepultado na sepultura de seu pai” (2Sm 17.23). O quarto exemplo não pode ser considerado suicídio qualificado. Estamos falando de Sansão, que causou a própria morte ao provocar um colapso no templo onde os filisteus estavam realizando uma grande comemoração. Na ocasião, três mil pessoas morreram. (Ver Juízes 16.30). No Novo Testamento, temos o famigerado caso de Judas Iscariotes, o traidor, que se enforcou depois de haver jogado as trinta moedas de prata sobre o pavimento do templo diante do sumo sacerdote e dos anciões (Mt 27.3-5). Um dos textos bíblicos que nos chamam a atenção sobre essa atitude de Judas foi registrado por Lucas quando menciona que alguns dias antes de suicidar-se Satanás entrara em Judas: “Entrou, porém, Satanás em Judas...” (Lc 22.3). O que nos leva a entender que o suicídio também pode ocorrer por possessão ou, no mínimo, por uma poderosa influência do diabo sobre os filhos da desobediência.  

As religiões tiveram sua posição formada sobre o suicídio; A Igreja Católica Apostólica, por anos não teve um pensamento científico sobre este acontecimento, e muitos cristãos por situações religiosas, políticas cometiam suicídio. Foi a partir de Agostinho de Hipona e posteriormente São Tomás de Aquino que a Igreja toma uma posição sobre o suicídio. Ambos viam, e ensinaram que o suicídio era pecado; pois era uma desobediência ao quinto (5º) mandamento, não matarás. A partir dessa norma, a Igreja proíbe os funerais e os enterros. “(...) Normas proibindo suicídio têm sido fortes no catolicismo, protestantismo, judaísmo e islamismo. Somente as religiões Orientais são mais tolerantes.” Embora a palavra não esteja induída na Bíblia, o suicídio de Judas é apresentado como consequência do seu grave pecado de trair o Cristo. A norma da Igreja Católica Apostólica em relação ao suicídio é incorporado ao Estado civil; é por lei, um crime, uma falta contra as instituições. As autoridades agiam rigorosamente contra esse ato, confiscando os bens das vítimas, obrigando os familiares a pagarem uma multa ao tesouro nacional. Essas penas às vezes chegavam mais além, por vezes o cadáver ficava exposto ao ar livre.
*Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e Bacharelando em Teologia pela Universidade Católica de Fortaleza. Seminarista/4º Ano de Teologia, Diocese de Sobral