Dízimo é sinal de bênção e de graça na comunidade

domingo, agosto 28, 2016




Dízimo está ligado com bênção e graça. Desde o Antigo Testamento criou-se a mentalidade do dízimo como resposta aos dons de Deus para o seu povo. Dar o dízimo atrai novas bênçãos e graças de Deus e tudo irá bem (cf. Ml 3,10). No Novo Testamento aprofunda-se esse aspecto ao se afirmar que “Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7).
A questão merece ser atualizada, uma vez que hoje a teologia da prosperidade está conquistando sempre mais fiéis menos informados, provocando confusão entre igrejas, e mesmo, entre os diversos segmentos da Igreja Católica. Essa teologia ensina que é próspero aquele que observa as leis, e o contrário também é verdadeiro. Movimentos de linha mais “carismática” privilegiam a visão da recompensa; movimentos de linha mais libertária e comprometida com a realidade dos pobres privilegiam a visão da colaboração que abre o coração para acolher sempre mais o amor de Deus.
Deus se doa sempre e o ser humano deve acolher sempre
Deus que se revela progressivamente ao ser humano, conforme a capacidade dele, mostra-se como aquele que ama incondicionalmente. Não exige nada em troca de seu amor. Ele é só amor. Isso quer dizer que, em contrapartida, o ser humano não pode “comprar” nada de Deus, pois, ele não vende nada. Não existe nenhuma forma de barganha entre o ser humano e Deus, uma vez que Deus não se deixa vencer em generosidade. É sempre Ele que se antecipa a tudo que suas criaturas necessitam para que tenham vida, e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Fazer a experiência desse amor de Deus consiste em acolhê-lo.
Acolher o amor de Deus não é passividade, mas atividade. Somente se experimenta, sempre limitadamente, o que Deus reserva para nós quando amamos o próximo e todas as formas de vida. Ou então, quando o amor de Deus se torna ação em nós – quando o amor de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, produz frutos bons para a salvação do mundo. Jesus o deixa bem claro quando diz que em primeiro lugar se deve praticar a justiça e o amor de Deus, sem omitir os “dízimos” (cf. Lc 11,42). A observância dos mandamentos, das leis, doação dos dízimos, ofertas, etc, tudo deve consistir em exercícios que abrem o ser humano para o amor sem limites de Deus. Quanto mais o ser humano se doa por amor, tanto mais ele experimenta e acolhe o Deus que é só amor.
Deus conta com o ser humano para implantar o seu Reino
Jesus anunciou o Reino de Deus presente em nosso mundo. Ele o testemunhou até as últimas consequências. Mas, por outro lado, por amor, conta com todas as pessoas de boa vontade para que a sua obra possa atingir a toda criatura. Mais uma vez, pode-se afirmar, sem medo de errar, que o melhor “dízimo” que se pode dar a Deus é acolher a proposta de Jesus de Nazaré e se fazer anunciador e colaborador do Reino de seu Pai. Quanto mais alguém doa de si e de seus bens para que o Reino de Deus possa estar e crescer neste mundo, tanto mais ele experimenta e acolhe as graças de Deus. Isso não tem nada haver com prosperidade no sentido de não ficar doente ou ter sucesso nos negócios, muito dinheiro e bens materiais. A prosperidade que vem da gratuidade de Deus há de lhe proporcionar a certeza de estar no caminho certo e de estar colaborando na construção de um mundo mais justo, fraterno e humano, onde os irmãos podem viver na presença de Deus.
Dízimo não é pagamento
Dentro dessa visão, dízimo não é pagamento. Muito menos uma “antecipação pecuniária” a Deus para obter dele soluções para os problemas da vida que precisam ser enfrentados por cada um. Como afirmamos, Deus não precisa e nem quer o nosso dinheiro e o nosso sacrifício para com ele se beneficiar. O que Ele quer, e convida instantemente, é que acolhamos seu amor e o façamos produzir frutos em prol do mundo. O mundo é obra de seu amor. E que cada um o acolha com o seu jeito de ser, assim como é. Então, seguindo o exemplo de Jesus, ao nos doarmos e darmos algo do que é nosso, estamos contribuindo gratuitamente para que uma nova realidade onde a vida plena pode florescer para todos se instaure sempre mais.
Necessita-se de cuidado especial para não desdizer os que veem o dízimo como fonte de bênçãos e de graças. Sempre aprendemos que Deus sabe recompensar qualquer gesto de bondade, por mínimo que seja (cf. Mt 10,42), mas que o entendamos bem. Mesmo que Deus não aceite pagamento, nem antes e nem depois de nos dar seus dons, ele cumula seus amigos com a graça de o experimentarem na gratuidade. Quer dizer, quem dá o seu dízimo com generosidade, faz seu o amor de Deus. Essa é a maior bênção e a maior graça! Quanto mais alguém se doa, mais ele é abençoado e agraciado. Ser abençoado não quer dizer que está imune dos sofrimentos que atingem a todos os humanos, mas é alguém que age impulsionado pela bondade de Deus. Bênção é uma graça concedida por Deus, é a ação de Deus na vida de uma pessoa, que pressupõe que a mesma acolheu Deus e que se abriu para a ação dele em sua vida.
Pe. Mário Fernando Glaab é Mestre em Teologia Dogmática, pela Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino de Roma, Pároco na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, União da Vitória/PR. Autor de várias obras, dentre elas: “Algumas considerações sobre os Sacramentos”, publicada ela Editora Pão e Vinho.