Como S. Francisco é diferente de Lutero – ou Reforma Católica vs. Reforma Protestante

outubro 27, 2016

ESSENCIALMENTE, FRANCISCO de Assis nos ensina que não podemos lutar contra heresias através da criação de novas heresias. S. Francisco sempre se submeteu à Igreja, os papas e os bispos. Sempre que a dita "reforma" começa com ações contra a Igreja institucional, mais heresia surge. Por exemplo, em muitos aspectos, a heresia monofisita (ou seja, Cristo tem uma só natureza) foi uma reação exagerada à heresia nestoriana (Cristo tem duas pessoas). 

A Igreja Católica sempre procurou apontar diretamente para a verdade, e não apenas à destruição de erro. Demasiadas vezes a refutação do erro leva para outro erro. Da mesma forma, Lutero e Calvino buscavam deslocar mal-entendidos sobre a Graça e mérito (ou seja, o nominalismo com defeito gerado por William de Ockham), criando uma visão alternativa de Graça e mérito (assim, ironicamente, abraça o nominalismo de Ockham, apenas 'reembalando-o'). A "solução" de Lutero era, na verdade, herética. Uma solução rápida é frequentemente defeituosa. 

A fita adesiva pode "consertar" quase tudo – mas, eventualmente, dará lugar a outros problemas. As páginas da História da Igreja estão repletas de reformadores católicos: desde Paulo, Atanásio, passando por João Crisóstomo, João Damasceno, o Papa Gregório VII, Francisco de Assis, Domênico, Catarina de Sena, Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, etc. Cada um desses reformadores católicos manteve a unidade da Igreja de Cristo submetido à liderança da Igreja, e pacientemente trouxeram renovação. Em muitos casos, esses renovadores sofreram a perseguição de outros cristãos e até mesmo caíram em suspeita de heresia. 

No entanto, sua humildade e silêncio finalmente vieram a confirmar a sua causa como defensores da verdade evangélica da Doutrina de Cristo. São Francisco de Assis é talvez um dos melhores exemplos de paciência aplicada na causa da Reforma. Quando ele foi a Roma buscar o reconhecimento do Papa, este despediu-o com impaciência e disse-lhe para ir "deitar-se com os porcos". Sim... Eram outros tempos. Mas, depois de algum tempo, Francisco voltou, todo sujo, roupas manchadas e fedorentas das fezes de suínos. 

Quando o Papa se opôs à sua entrada, Francisco respondeu: "Obedeci tuas palavras e apenas fiz o que disseste; deitei-me com os porcos". De repente, o Sumo Pontífice percebeu que estava diante de um santo homem, disposto a obedecer mesmo em face da humilhação. Assim, o Papa ouviu visão de Francisco para uma necessária renovação dos usos e e práticas dos filhos da Igreja naquela época, e o resto é História. Quando rejeitado pelo Papa, S. Francisco de Assis poderia ter apelado à Sagrada Escritura, mostrando que este seu padrão de vida pobre e humilde era como o de Cristo. 

Ele poderia até ter contrastado sua própria "vida bíblica" contra a extravagância da corte papal da época. Francisco tinha razão para estar angustiado, bem o sabemos, e poderia ter repreendido aqueles abades, bispos e cardeais por sua falta de testemunho evangélico. Mas em vez disso, seguiu o caminho de Cristo; aceitou ser incompreendido e caluniado, sabendo que Deus responderia suas reivindicações... e Deus nunca desampara (uma causa justa como a sua). Contraste entre São Francisco de Assis e Martinho Lutero: Lutero não visitou Roma para a confirmação da sua causa, nem procurou respeitar as estruturas da Igreja. Na verdade, o cardeal Cajetan reuniu-se em particular com Lutero e explicou-lhe como poderia modificar a sua mensagem para que fosse aprovada pela Cúria Romana e consequentemente considerada. Se Lutero tivesse se movido com mais cautela e caridade, poderia até – quem sabe – ter se tornado "São" Martinho Lutero. Infelizmente, Lutero foi inflexível e orgulhoso. 

Ele não considerou seu compromisso de obediência para com a Igreja de Cristo. Se o Papa não estava de acordo com ele, então ele iria rejeitar a própria instituição do papado (desde Pedro). Lutero não iria tolerar qualquer autoridade que se recusasse a apoiá-lo, imediatamente e sem questionar. Consequentemente, quando a Bula papal chegou, Lutero a queimou publicamente e começou a amaldiçoar o Papa como Anticristo. Observe a diferença entre Francisco e Lutero. O primeiro movia-se com paciência e humildemente. 

O último agiu de forma independente e precipitadamente. Consequentemente, a história do protestantismo é marcada por paixão cega, imprudência e divisão precipitada – como resultado, agora existem 36.000 denominações protestantes(!). Como escreveu S. Tiago Apóstolo: "A ira do homem não produz a Justiça de Deus" (Tg 1,20). A História mostra que Deus não usa "cabeças-quentes" para guiar sua Igreja na justiça. Deus escolhe os pequenos, mansos e humildes – para tais é o Reino dos Céus. Aí reside o mistério da autêntica Reforma Católica.
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