A dignidade das crianças

sábado, janeiro 07, 2017



Cidade do Vaticano (RV) – O Papa voltou a condenar com profundo rigor e dor os abusos sexuais cometidos por sacerdotes contra crianças e a exploração contra os pequenos, que para muitos se tornaram mercadorias a serem negociadas no submundo do comércio: “um pecado que nos faz envergonhar”. Pessoas que tinham a responsabilidade de cuidar dessas crianças destruíram a sua dignidade. “Os pastores ouçam o pranto de tantas crianças no mundo vítimas de violências”: são as duras palavras de Francisco em uma Carta escrita aos Bispos por ocasião da Festa dos Santos Inocentes, que celebramos no último dia 28 de dezembro.

Na sua carta, sem meias palavras o Santo Padre fala de “tolerância zero” em relação aos abusos sexuais. Também a Igreja chora com amargura este pecado de seus filhos e pede perdão e o imperativo é renovar o compromisso para que “estas atrocidades não ocorram mais entre nós” e encontrar “a coragem para promover todos os meios necessários e proteger em tudo a vida das nossas crianças”. “Pecado que nos cobre de vergonha”, escreveu Francisco.
“Deploramos isso profundamente e pedimos perdão. Solidarizamo-nos com a dor das vítimas e, por nossa vez, choramos o pecado: o pecado que aconteceu, o pecado de omissão de assistência, o pecado de esconder e negar, o pecado de abuso de poder.”
Na sua carta Bergoglio lança também um premente apelo para “proteger as crianças dos novos Herodes dos nossos dias”, recordando que ainda hoje se sente o pranto de tantas mães, pelas suas crianças, pela sua “inocência dilacerada sob o peso do trabalho ilegal e escravo, sob o peso da prostituição e da exploração. Inocência destruída pelas guerras e pela emigração forçada. Milhares de crianças nossas caíram nas mãos de bandidos, de máfias, de mercadores de morte cuja única coisa que fazem é malbaratar e explorar as suas necessidades.” Escutemos o pranto e o lamento destas crianças.
Francisco citou um exemplo: hoje, por causa das emergências e das crises prolongadas, 75 milhões de crianças tiveram de interromper sua instrução. Calcula-se que, no ano de 2016, 150 milhões de crianças realizaram um trabalho infantil, muitas delas vivendo em condições de escravidão.
Herodes não terá a última palavra: serão as próprias crianças a derrotá-lo, com o seu grito, com a sua dor, com a sua inocência. Recordamos que por detrás de uma criança corrompida, há sempre um adulto que corrompe: a exploração de menores é hoje é tão grande que fica atrás somente do comércio de armas e da droga. Um verdadeiro mercantilismo que grita justiça.
As crianças e as famílias devem sempre encontrar na Igreja um lugar seguro, uma comunidade sempre acolhedora, que está do lado dos mais fracos e indefesos, que lhes defenda até às extremas consequências. A Igreja deve ainda fazer muita estrada e já está fazendo. Recordamos que o Papa Francisco instituiu a Comissão para a tutela dos menores e depois criou o novo Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral. Francisco continua assim a grande obra de Bento XVI.
Muitos eclesiásticos afirmam, e é o caso do sacerdote italiano Fortunato di Noto, Presidente da Associação Meter comprometida contra a pornografia infantil, que seria “oportuno que o vermelho da vergonha na Igreja fosse assumido por todos”.
A tolerância zero que mais uma vez o Papa Francisco repete, rescreve e assina é a demonstração de que não é possível que a Igreja, que deve ser lugar de luz, de paz, de acolhida, de amor, de proteção, possa se tornar – por causa de alguns – um lugar onde se vive o horror. Tolerância zero para a exploração de inocentes em nome do deus dinheiro. Tolerância zero para quem destrói a dignidade das crianças.
O gemido das crianças indefesas é um gemido que continuamos a ouvir ainda hoje. Um gemido – afirmou Francisco - que nos toca a alma e que não podemos nem queremos “ignorar ou silenciar”. E pergunta-se: “pode-se viver a alegria cristã, voltando as costas a estas realidades? Pode-se realizar a alegria cristã, ignorando o gemido do irmão, das crianças?” Perguntas que devem ecoar nas nossas consciências, dentro e fora da Igreja. (Silvonei José)
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