Suicídio - Parte II

quinta-feira, janeiro 05, 2017
Mudança de paradigmas religiosos e sociais

Só no século XIX, estudiosos e filósofos refletem sobre esse fato, consequentemente surge, uma mudança de paradigmas. O suicídio é encarado como ato de loucura, perde assim o teor puramente moral. Porém na atualidade não é levado em conta nem o racional, nem a moral.  
 Atualmente o suicídio não é visto exclusivamente como um problema moral, mas também como um problema de saúde mental. Muitos peritos no assunto acreditam que a maioria dos suicídios são compulsivos e irracionais. Aqueles que tiram a própria vida estão emocionalmente perturbados e agem compulsivamente, ou então a responsabilidade é tão distorcida pela angústia que a liberdade de escolha está totalmente comprometida.[1]

Posição da Igreja Católica Apostólica sobre o suicídio nos tempos modernos a partir do Catecismo.

O Catecismo mostra que o ser humano é responsável por sua vida perante Deus. Ele que é o único soberano. Por sua vez o homem deve preservar a vida e honrá-la para a salvação das almas. Significa que somos administradores da vida não donos, ou seja, não temos o poder nem o direito de dispô-la.
Este documento doutrinal afirma que o suicídio é uma contradição natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida.

É gravemente contrário ao justo amor a si mesmo”. Se por um lado ofende a Deus porque a vida é dele, por ofende ao próximo, porque rompe de maneira injusta os laços de amizade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos vincula a vários deveres. A igreja reconhece a fragilidade de uma pessoa que cometeu o suicídio, por isso o próprio catecismo apresenta situações que devem ser consideradas graves, como é o caso de uma pessoa que se suicida para mostra seu exemplo principalmente para a juventude, nessa condição o agressor a si próprio adquiri a gravidade de um escândalo. Aqueles que ousam ajudar um suicida está agindo contra a lei moral; Já um problema psíquico muito grave, angústia, medo de uma provação muito séria, medo do sofrimento ou tortura  pode ser minimizado a responsabilidade do suicida. (...) A igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.[2]

No evento da modernidade Victor Frankl judeu viveu o langer, ou seja, uma experiência que os judeus viveram nos campos de concentração e de extermínio no período da Segunda Guerra Mundial. Ele é o primeiro psiquiatra a afirmar que não há provas da autenticidade do discurso religioso, porém não se pode confirmar que seja sinal de neurose. Por conseguinte a religião e a psicologia têm a função comum de religar o homem. “A religião, a Deus; a psicologia, a si mesmo e às suas fontes mais genuínas.”[3]
No entanto, a religião pode contribuir muito para o bom desenvolvimento humano juntamente com a psicologia. No entanto, Frankl ver a religião como um doar-se por inteiro, ato de amor. Se o homem é consciente desse doar-se ele não cometerá o suicídio, pois ele possui uma consciência pura e autentica com o absoluto, Deus.  Diz Maciel comentador de Frankl in:

Falando de religião, o que Frankl tem em vista não é a prática do culto, mas especificamente o ato autentico da fé (como entrega total e consciente no amor), uma atitude de engajamento profundo em uma busca de dialogo pessoal com o todo da experiência humana. Isto é, um ato profundamente pessoal. (...): o ato religioso deve ser a expressão de algo quem vem das profundezas do homem, mas que atravessa e é “humanizado” por todo o processo consciente-volitivo.[4]


         O suicídio, é um tema doloroso para várias famílias, é um assunto complexo, problemático. O ato de suicidar-se pode ser racionalmente planejado, como também poder ser um ato levado pela emoção. Sua complexidade dá-se porque não existe uma reposta pronta, concreta que defina a causa do suicídio nem muito menos um remédio combatente. É preciso ser educado, sensível na abordagem para com as famílias que já vivenciaram a experiência de um suicídio com um membro familiar.
         Nesse contexto existem ainda atitudes preconceituosas, ações vergonhosas em relação ao suicídio. As famílias sentem-se tristes porque perderam um ente querido, mas também sentem-se desconfortáveis porque há ainda exclusão. Ao suavizar, ser educado para com os familiares das vitimas, não é uma afirmação, legitimação ou justificativa de  apoio ao ato do suicida. Deve-se a todo custo denunciar sua gravidade, é um ato agressivo contra a vida, contra a sociedade, contra família, contra a si próprio, porque ninguém pode dispor da própria  vida como reza o Catecismo Católico. Mas em relação àqueles que por algum tipo de fraqueza cometeram tal ação, devemos ser misericordiosos para com a família e  os envolvidos no drama. 
         Na modernidade mesmo com o avanço da medicina, e de tantos valores benéficos não se reduziu o suicídio; as estatísticas apresentam o acréscimo ainda mais forte. Para a Igreja Católica Apostólica, que tem a Tradição, depósito da fé, houve uma mudança na forma de pensar sobre o suicídio. Antes era punição (exclusão), hoje ela já não mais exclui a família ou o suicida, hoje reza-se por um suicida. Mas essa mesma Igreja em seus ensinamentos mostra a gravidade do ato suicida, como algo anormal.
         Igreja tem contribuído muito na ação contra o suicídio, sua mensagem evangélica é sempre em favor da vida. Isso leva muitas pessoas a não cometerem tal ação. Também grupos não religiosos que criaram plantões de atendimentos telefônicos, visitas. Tudo isso são ações com o objetivo de evitar que as pessoas cometam suicídio.
         Por fim, todos nós podemos contribuir para o não suicídio; mas só a pessoa com tendências ao suicídio pode tomar a decisão de não cometer isso. Esse desejo está ligado no intimo da pessoa, aqueles que estão ao redor, só saberão se a vitima anunciar, ou manifestar em atos  e palavras. 

Escrito por, Francisco Ednardo Gomes, Seminarista estagiário da Diocese de Sobral, Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica de Fortaleza. 

[1] Ibidem.
[2]  CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 1999.
[3]  MACIEL, J.C. O indisponível e a Psicologia. In: HOLANDA, Adriano. ORG. Psicologia, Religiosidade e Fenomenologia. Campinas, SP: Editora Alinéa, 2014, p. 144.
[4]  Ibidem.